terça-feira, 10 de julho de 2012

blue blue day

o dia hoje amanheceu
tão-tão azul tristinho,
mas muito desbotadinho,
nem dei conta que era meu.

mal tardou, anoiteceu,
num cinza-azul tão apagado,
por fim, mal acabado,
dia esse que é todo seu...

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Mulheres Amorosas - II

Vó Candinha chega a mim por histórias, minha bisa-avó amada.
A preferida diz respeito a certa tática de conquista muito honrosa:

Nas férias, a netaiada toda enchia a casa de seu sítio em Piraí.
Perto da hora do almoço, sorrateira, chegava pra um,
dizia: "olha, vou colocar um ovo debaixo do seu feijão,
mas não conte pra ninguém, é só pra você, meu neto querido..."

O pequeno enchia-se de orgulho próprio por ser tão importante!
E tomava todo cuidado pra não ser descoberto e perder a regalia.

Anos e anos mais tarde, quando, em conversas sobre a mesa,
um outro - não sem certo constrangimento modesto -
resolve contar o mimo que a vó lhe fazia, a velha é descoberta!
Para todos os netos, fazia igual.

Mulheres Amorosas - I

Tia Ambrosina era corpulenta, tinha traços pouco femininos.
Era o aconchego em pessoa.

Havia tanto frescor em seu temperamento que eu
- menina um tanto emburrada da cidade -
sentia nela aquela cumplicidade que as crianças só concedem aos que tem a mesma idade.

Cuidadosamente, com as heras que subiam pela parede,
esculpia molduras vivas nas portas e janelas de sua casa.
Ela brincava: minha casa nunca para de crescer.

Do fogão a lenha saiam bolos e frituras que preenchiam o ar de um aroma terno
que Tia Ambrosina completava com uma larga risada.

No quintal, um grande tanque de água corrente da serra se prestava a bons banhos, em dias de coragem.

Pintinhos, passarinhos e afins eram presença sempre constante.

Eu achava aquela casa tão bonita, mas tão bonita,
que hoje pensando nela, eu penso
que beleza é o que se sente
e que casas, na verdade, são pessoas.

terça-feira, 17 de abril de 2012


depois que desata o laço se solta,
dá volta, e se enlaça,
de novo,

nó.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Hoje pela manhã, um caminhão carregado de sono tombou em minha cama. O colchão, que só foi liberado após o meio-dia, ainda apresenta vestígios dos sonhos derramados...

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A Noite Verdadeira - I

parem! parem tudo!
não me enviem as últimas notícias,
nem do mundo, nem de ninguém!
não quero saber mais nada!

estou farta de informação, vazia de sentido.
estou cansada, todos estão.

parem, por favor...

apaguem as luzes,
fiquemos calados:

quero o silêncio de uma noite verdadeira.

domingo, 4 de setembro de 2011

faço agora o derradeiro esforço
de terminar o que não me faz sentido,
nem me terá serventia

iludi-me e desiludi-me tanto
só não parei por medo de parar
e entendi: nunca sai do lugar