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segunda-feira, 12 de maio de 2014

Vestígios de Sonho - VI

Essa noite sonhei que morria, dormindo. Sem saber muito bem pra onde estava indo, cheguei à "portaria da morte". Lá, um homem negro, vestido de branco, um pouco gordo, sentenciou: Você morreu. Diante da minha recusa em aceitar o fato, este educado porém frio homem, enviou-me para outro setor, onde uma mulher ruiva, muito elegante, de óculos, confirmou: Sim, você morreu. Mas como assim, como morri, se apenas fui dormir, o que eu tive? Ela examinou uns papéis: você tinha câncer nos rins, mas morreu de um ataque cardíaco. Esta decisão foi tomada pois você não estava fazendo bom uso de seu tempo em vida.

Meu comportamento era o de uma pessoa que é cobrada indevidamente ou exatamente o de uma criança que faz alguma coisa errada e quer a redenção: Não, não pode ser, por favor me dê uma chance, prometo fazer diferente, eu sei que é um sonho de morte, que estou dormindo, mas prometo que quando acordar lembrarei de tudo isso e farei diferente. Lembro de um olhar complacente, ou talvez duvidoso. Lembro de voltar a dormir.

Acordei com a lembrança da morte e da promessa. Afinal tudo não passou de um sonho, talvez o câncer nos rins fosse apenas vontade de fazer xixi, o ataque cardíaco uma simples reação do meu coração ao lembrar de você.

Mas o aviso para aproveitar melhor meu tempo, esse foi real.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Vestígios de Sonho - III

E cheguei à um tempo e uma vida passada,
uma cidade pequena, uma noite chuvosa.
Tocava música, era acordeon.

Havia um casal: dançavam nus pelas ruas, girando, girando...
Num momento eu admirava, depois era eu a moça,
e girava, girava, girava junto ao meu par.

Então algo aconteceu, ele precisou fugir.
Pedi-lhe que guardasse um número:
127 (falei em espanhol, pausadamente: uno, dos, siete).

Sozinha, sentia frio, fome e medo.
Outro homem apareceu e me deu uns restos de comida (era o mecânico do pedregulho).
Fiquei agradecida. Não lembro mais nada.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Vestígios de Sonho - II

Estava no 996 a caminho do Rio, na ponte. Na subida do vão central, o ônibus subiu mais, descolou do chão, virou um imenso navio que ondeava no ar, seguindo o mesmo caminho, carros e ônibus passando embaixo, cada vez mais distantes. Tudo ficou leve, como feito de vento.
Os passageiros pareciam estar acostumados, ou não perceber a transformação, mas eu estranhei. 
Me levantei e fui até a proa, lá havia um grupo de meninos. Na verdade, homens que pareciam meninos. Estavam a trabalho: eram 'bombeiros', recebiam muitos chamados, e saiam, voando - cada um pra um lugar, uma coisa diferente - e depois voltavam, e comemoravam mais uma tarefa cumprida, animados, murmurinho no ar.
Conversei com outras pessoas que também estavam ali, passageiros como eu, mas os bombeiros, eu só podia ouvir e observar, não era possível interagir, eles eram de outra dimensão, cinema no ar - e eram reais.
Então, na descida do vão central, o navio foi descendo também, voltando novamente a ser ônibus, a andar colado ao asfalto, a nos levar pro trabalho. 


O vestígio: a leveza que sinto agora.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Vestígios de Sonho - I

Era um sítio. Fazia sol. Estava num gramado, próximo à casa.
Fui picada por uma abelha, 
logo muitas abelhas (se emaranhando nos cabelos),
zumbido,
confusão,
escuro.

Acordei dentro da casa. Fora, ainda fazia sol, mas a casa era fria.
Veio a mãe do sonho: quis saber como me sentia.
Contou do ataque das abelhas,
que estive desacordada desde então,
que muitos anos haviam se passado... e nesse tempo chegou um moço, 
um enfermeiro, que cuidou de mim e esteve sempre ao meu lado:
me alimentando, contando histórias, esperando pacientemente que eu acordasse.

Ele acabou de sair - disse a mãe - mas prometeu voltar logo.

Corri pra janela e ainda o vi seguindo em direção à porteira.
Não usava uniforme, mas umas roupas velhas,
era alto, magro, os cabelos reluziam ao sol.

Quando ia fechar o trinco, fez um movimento de olhar pra casa...

Me escondi entre as cortinas e continuei observando...
aquela figura que, subitamente, me encantara
- mas que também me metia medo.


O vestígio: uma sensação de renascimento e de curiosidade, se é que não significam a mesma coisa...