Essa noite sonhei que morria, dormindo. Sem saber muito bem pra onde estava indo, cheguei à "portaria da morte". Lá, um homem negro, vestido de branco, um pouco gordo, sentenciou: Você morreu. Diante da minha recusa em aceitar o fato, este educado porém frio homem, enviou-me para outro setor, onde uma mulher ruiva, muito elegante, de óculos, confirmou: Sim, você morreu. Mas como assim, como morri, se apenas fui dormir, o que eu tive? Ela examinou uns papéis: você tinha câncer nos rins, mas morreu de um ataque cardíaco. Esta decisão foi tomada pois você não estava fazendo bom uso de seu tempo em vida.
Meu comportamento era o de uma pessoa que é cobrada indevidamente ou exatamente o de uma criança que faz alguma coisa errada e quer a redenção: Não, não pode ser, por favor me dê uma chance, prometo fazer diferente, eu sei que é um sonho de morte, que estou dormindo, mas prometo que quando acordar lembrarei de tudo isso e farei diferente. Lembro de um olhar complacente, ou talvez duvidoso. Lembro de voltar a dormir.
Acordei com a lembrança da morte e da promessa. Afinal tudo não passou de um sonho, talvez o câncer nos rins fosse apenas vontade de fazer xixi, o ataque cardíaco uma simples reação do meu coração ao lembrar de você.
Mas o aviso para aproveitar melhor meu tempo, esse foi real.
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segunda-feira, 12 de maio de 2014
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Vestígios de Sonho - III
E cheguei à um tempo e uma vida passada,
uma cidade pequena, uma noite chuvosa.
Tocava música, era acordeon.
Havia um casal: dançavam nus pelas ruas, girando, girando...
Num momento eu admirava, depois era eu a moça,
e girava, girava, girava junto ao meu par.
Então algo aconteceu, ele precisou fugir.
Pedi-lhe que guardasse um número:
127 (falei em espanhol, pausadamente: uno, dos, siete).
Sozinha, sentia frio, fome e medo.
Outro homem apareceu e me deu uns restos de comida (era o mecânico do pedregulho).
Fiquei agradecida. Não lembro mais nada.
uma cidade pequena, uma noite chuvosa.
Tocava música, era acordeon.
Havia um casal: dançavam nus pelas ruas, girando, girando...
Num momento eu admirava, depois era eu a moça,
e girava, girava, girava junto ao meu par.
Então algo aconteceu, ele precisou fugir.
Pedi-lhe que guardasse um número:
127 (falei em espanhol, pausadamente: uno, dos, siete).
Sozinha, sentia frio, fome e medo.
Outro homem apareceu e me deu uns restos de comida (era o mecânico do pedregulho).
Fiquei agradecida. Não lembro mais nada.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Vestígios de Sonho - II
Estava no 996 a caminho do Rio, na ponte. Na subida do vão central, o ônibus subiu mais, descolou do chão, virou um imenso navio que ondeava no ar, seguindo o mesmo caminho, carros e ônibus passando embaixo, cada vez mais distantes. Tudo ficou leve, como feito de vento.
Os passageiros pareciam estar acostumados, ou não perceber a transformação, mas eu estranhei.
Me levantei e fui até a proa, lá havia um grupo de meninos. Na verdade, homens que pareciam meninos. Estavam a trabalho: eram 'bombeiros', recebiam muitos chamados, e saiam, voando - cada um pra um lugar, uma coisa diferente - e depois voltavam, e comemoravam mais uma tarefa cumprida, animados, murmurinho no ar.
Conversei com outras pessoas que também estavam ali, passageiros como eu, mas os bombeiros, eu só podia ouvir e observar, não era possível interagir, eles eram de outra dimensão, cinema no ar - e eram reais.
Então, na descida do vão central, o navio foi descendo também, voltando novamente a ser ônibus, a andar colado ao asfalto, a nos levar pro trabalho.
O vestígio: a leveza que sinto agora.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Vestígios de Sonho - I
Era um sítio. Fazia sol. Estava num gramado, próximo à casa.
Fui picada por uma abelha,
logo muitas abelhas (se emaranhando nos cabelos),
logo muitas abelhas (se emaranhando nos cabelos),
zumbido,
confusão,
escuro.
Acordei dentro da casa. Fora, ainda fazia sol, mas a casa era fria.
Veio a mãe do sonho: quis saber como me sentia.
Veio a mãe do sonho: quis saber como me sentia.
Contou do ataque das abelhas,
que estive desacordada desde então,
que muitos anos haviam se passado... e nesse tempo chegou um moço,
um enfermeiro, que cuidou de mim e esteve sempre ao meu lado:
que estive desacordada desde então,
que muitos anos haviam se passado... e nesse tempo chegou um moço,
um enfermeiro, que cuidou de mim e esteve sempre ao meu lado:
me alimentando, contando histórias, esperando pacientemente que eu acordasse.
Ele acabou de sair - disse a mãe - mas prometeu voltar logo.
Corri pra janela e ainda o vi seguindo em direção à porteira.
Ele acabou de sair - disse a mãe - mas prometeu voltar logo.
Corri pra janela e ainda o vi seguindo em direção à porteira.
Não usava uniforme, mas umas roupas velhas,
era alto, magro, os cabelos reluziam ao sol.
era alto, magro, os cabelos reluziam ao sol.
Quando ia fechar o trinco, fez um movimento de olhar pra casa...
Me escondi entre as cortinas e continuei observando...
aquela figura que, subitamente, me encantara
- mas que também me metia medo.
O vestígio: uma sensação de renascimento e de curiosidade, se é que não significam a mesma coisa...
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