segunda-feira, 4 de abril de 2011

desabafo de uma dona de casa

passo o café, passo a roupa, passo um pano no chão
faço almoço, lavo a louça, levo o lixo pra fora
ouço as noticias da semana na televisão
levo o menino pra escola

pego as cartas, molho as plantas, ponho as mantas ao sol
pago as contas, faço as compras e até leio um jornal
pego a receita do domingo na televisão
pego o menino na escola

e tem mais, o vizinhos,
eles são até legais,
só que falam demais
blá blá blá blá blá blá!
meu benzinho, eu quero paz!

e já faz um tempo que eu economizo
o troco do pão!
e ando frequentando a agência de turismo
— tem promoção?
pois hoje comprei um pacote, incluindo
a passagem do avião!

só preciso de um pouco de sol,
de água de coco,
talvez um banho de butique,
são só dez dias,
eu volto...

com marquinha de biquíni!

segunda-feira, 28 de março de 2011

Contos de Fumaça - I

O tema da prosa, da vez, era a posse das terras de trás da igreja.
Falaram no nome de Mané Nune, que começou fazendo fortuna de maneira meio sem modos:

Em tempos de safra de café, juntava mulher e filhos,
e metidos em lençóis,
e munidos com velas,
saíam pela noite a assombrar as casas, e se o morador, no medo de ser mesmo coisa de outro mundo, fugisse, deixando as sacas no jeito de se pegar, ele pegava. Na mesma noite rumava pra cidade com os grãos que não havia plantado nem colhido. Quem espreitasse pela janela curioso do barulho, via o fantasma da carroça passando.

Rosinha Nune sua filha, tomou mesmo tanto gosto na atuação do assombro que ainda hoje, já beirando o centenário, agenda suas peças pela madrugada... 

sábado, 19 de março de 2011

não palavras, criadas.

são as não-palavras:
grunhido, gemido, suspiro, choro, risada, grito
- o intrínseco -,
honesta comunicação.

sons ou não sons?

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Vestígios de Sonho - I

Era um sítio. Fazia sol. Estava num gramado, próximo à casa.
Fui picada por uma abelha, 
logo muitas abelhas (se emaranhando nos cabelos),
zumbido,
confusão,
escuro.

Acordei dentro da casa. Fora, ainda fazia sol, mas a casa era fria.
Veio a mãe do sonho: quis saber como me sentia.
Contou do ataque das abelhas,
que estive desacordada desde então,
que muitos anos haviam se passado... e nesse tempo chegou um moço, 
um enfermeiro, que cuidou de mim e esteve sempre ao meu lado:
me alimentando, contando histórias, esperando pacientemente que eu acordasse.

Ele acabou de sair - disse a mãe - mas prometeu voltar logo.

Corri pra janela e ainda o vi seguindo em direção à porteira.
Não usava uniforme, mas umas roupas velhas,
era alto, magro, os cabelos reluziam ao sol.

Quando ia fechar o trinco, fez um movimento de olhar pra casa...

Me escondi entre as cortinas e continuei observando...
aquela figura que, subitamente, me encantara
- mas que também me metia medo.


O vestígio: uma sensação de renascimento e de curiosidade, se é que não significam a mesma coisa...
quando durmo, moro em mim
quando sonho, passeio
tão logo acordo, me guardo
portanto: nunca saio

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

criança, quando cai,
acha graça!
ou chora - se dói - e passa.

- que sapeca!

e o adulto quando cai?
se embaraça, todo chato,
e disfarça, kick ass.

- que boboca!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

agora você me olha, você me lê
por amor ou pura curiosidade
porque sente saudade
você ainda me guarda.

e eu continuo toda errada
enquanto não durmo
a me revirar, a nunca encontrar
o que eu queria ser.