terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Um assunto não urgente

Hoje bateu a porta um senhor procurando por meu pai. Porque ele não estava, perguntei quem era e se queria deixar algum recado. Ele se apresentou e disse que não era nada urgente, nada demais, apenas passou em frente da casa e lembrou de bater, pois fazia tempo que não se encontravam.

Eu mantenho contato com meus amigos frequentemente - por telefone, email, redes sociais. Mas não lembro a última vez que bati a porta de um amigo pra conversar, ainda mais sendo um assunto não urgente. Talvez na adolescência tenha aparecido de surpresa na casa de alguma amiga, mas imagino que foi aos prantos por ter levado um fora, ou eufórica porque fui pedida em namoro - assunto urgentíssimo, portanto.

O fato é que fiquei pensando na riqueza que existe nos assuntos que não são urgentes. Naquela conversa despretensiosa que primeiro quer saber como anda a vida e depois vai se estendendo, estendendo - ainda mais se acompanhada de alguma coisa alcoólica. Quantas idéias, quantas músicas, quantos projetos, quantos laços já devem ter surgido dessas conversas. E podem estar surgindo agora.. tomara.

Nunca tinha visto esse amigo do meu pai.
Na próxima vez que ele bater a porta, vou querer conversar sobre os assuntos não urgentes também.

terça-feira, 19 de agosto de 2014


esse pensamento longe que tens..

longe que avoa
cabeça de vento
tão longe

alcança-me

tua imagem é uma afronta
tão perto

que desaparece

e já não sei se és pensamento,
imagem,
o próprio vento,

ou se és - eu

segunda-feira, 18 de agosto de 2014


às vezes algum rosto me emociona. na rua, numa revista.
uma expressão.
profundamente sinto que conheço todas as emoções que movem este rosto aleatório.
e muitas vezes o invejo, só pelo fato de não ser eu. o meu rosto.

já fiz muitas promessas que não cumpri.
aos santos, a qualquer um, a mim mesma.

porque tudo isso? não sei.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014


Não fosse - tantas vezes - trágico,
ser humano seria cômico

Não fosse humano: apenas
SER

quarta-feira, 14 de maio de 2014

- Tom Zé

"Conselho para um jovem compositor
Não há vida depois da morte. Mas é absolutamente certo que há uma vida depois da vida.
Agora, você está começando a ensinar seu córtex cerebral a cantar. Desde o começo tenha todo o cuidado com a violência, porque quando as ligações neurônicas se repetem muitas vezes elas se tornam hábitos e estes hábitos mecânicos são transmitidos para o cerebelo.
O cerebelo tem um controle mais distante e fica repetindo os hábitos adquiridos. Se esses hábitos remotos estiverem carregados de violência, quando você não mais necessitar dela para agir-reagir com o mundo, ela – a violência – continuará sacudindo você descontroladamente por muito tempo."

"...desse lado que conta como cada passo é dado com medida, altura, largura e tempo"

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Vestígios de Sonho - VI

Essa noite sonhei que morria, dormindo. Sem saber muito bem pra onde estava indo, cheguei à "portaria da morte". Lá, um homem negro, vestido de branco, um pouco gordo, sentenciou: Você morreu. Diante da minha recusa em aceitar o fato, este educado porém frio homem, enviou-me para outro setor, onde uma mulher ruiva, muito elegante, de óculos, confirmou: Sim, você morreu. Mas como assim, como morri, se apenas fui dormir, o que eu tive? Ela examinou uns papéis: você tinha câncer nos rins, mas morreu de um ataque cardíaco. Esta decisão foi tomada pois você não estava fazendo bom uso de seu tempo em vida.

Meu comportamento era o de uma pessoa que é cobrada indevidamente ou exatamente o de uma criança que faz alguma coisa errada e quer a redenção: Não, não pode ser, por favor me dê uma chance, prometo fazer diferente, eu sei que é um sonho de morte, que estou dormindo, mas prometo que quando acordar lembrarei de tudo isso e farei diferente. Lembro de um olhar complacente, ou talvez duvidoso. Lembro de voltar a dormir.

Acordei com a lembrança da morte e da promessa. Afinal tudo não passou de um sonho, talvez o câncer nos rins fosse apenas vontade de fazer xixi, o ataque cardíaco uma simples reação do meu coração ao lembrar de você.

Mas o aviso para aproveitar melhor meu tempo, esse foi real.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014


entre discursos, sentimentos, atitudes
quantas contradições cabem!

cabem, mas não servem

como roupas apertadas
oprimem, deformam
o sem limite do ser

então vou

retirar toda capa
desatar todo nó
servir, ao que sou

onde só cabe

um sentimento,
um discurso,
uma atitude:

AMOR